O fetiche pela competência: como 'The Pitt' e 'The Bear' ganham fãs com estética do trabalho bem feito

  • 11/02/2026
(Foto: Reprodução)
Como 'The Pitt' e 'The Bear' ganham fãs com a estética do trabalho impecável Esqueça dragões, bilionários, super-heróis ou anti-heróis. O novo normal nas séries de TV é ver alguém chegar no horário, seguir protocolos e fazer seu trabalho muito, muito bem. "The Bear" e "The Pitt" consolidaram um subgênero que a crítica americana batizou de "competency porn" (um "fetiche da perfeição", em tradução livre). Em um cenário de serviços precários e obsessão por notas de uma a cinco estrelas, o público se rendeu à competência absoluta nas telas. O conforto, agora, não vem do romance, das tretas ou do final feliz, mas da visão hipnótica de um ambiente de trabalho onde a técnica se sobrepõe ao caos. Até que ponto o sucesso dessas séries tem a ver com nossa vontade de ver problemas complexos serem triturados por uma precisão cirúrgica? Cena da série 'The Pitt' Divulgação "The Bear" transformou a cozinha caótica em um ambiente de alta performance. O apelo da série reside na "estética do esforço". O público é seduzido pelos closes em facas afiadas, pelo chiar da carne na chapa e pela busca de uma performance eficiente. O "Sim, chef" virou um mantra de organização que falta na vida real. Mais recente, porém igualmente elogiada e premiada, "The Pitt" foca na sobrevivência técnica. A série, que trouxe Noah Wyle (o Dr. Carter de "Plantão Médico") de volta ao jaleco, elevou o "fetiche da perfeição" ao adotar o formato de tempo real. Ao mostrar 15 horas ininterruptas de um pronto-socorro na cidade americana de Pittsburgh, a produção removeu o melodrama típico de séries médicas antigas (como os romances de elevador de "Grey's Anatomy") para focar mais no procedimento. O prazer de assistir a "The Pitt" vem da resolução de problemas. O Dr. Michael Robinavitch não é um herói por ser carismático, mas por ser capaz de diagnosticar e tratar pacientes em segundos, enquanto navega por um sistema de saúde combalido. É a fantasia de que, se o sistema falhar, o indivíduo competente ainda pode salvar o dia. E os pacientes. Jeremy Allen White na série 'The Bear' Divulgação Essa obsessão pelo profissional infalível não é um fenômeno novo. Nos anos 90, o estilo passou a ser mais explorado sobretudo em produções do diretor Michael Mann e do roteirista Aaron Sorkin. Em "Fogo Contra Fogo" (1995), Mann dirige e roteiriza o embate entre o ladrão e o detetive sob a ótica da precisão tática. Essa ideia de uma batalha técnica entre forças competentes se repete em outros projetos do cineasta. O prazer de assistir a um filme de Mann não vem só da ação, mas da maneira correta de carregar um fuzil ou da explicação de quem não tem tempo para amadores. Essa obsessão pelo "fazer bem feito" está ainda em "Profissão: Ladrão" (1981), em que a técnica de abrir cofres é filmada com a reverência de um ritual, e "O Informante" (1999), sobre a competência processual e ética do jornalismo. Para Mann, a maior forma de heroísmo não está na moralidade, mas na proficiência. O personagem é definido pela maestria com que exerce o seu ofício. Brad Pitt e Jonah Hill no filme 'O homem que mudou o jogo' Divulgação Sorkin, por sua vez, celebra a eficiência em setores diferentes, do esporte (o filme “O Homem Que Mudou o Jogo”) à imprensa (a série “The Newsroom”). Os personagens do roteirista e diretor são perfeitos para quem busca o prazer de ver pessoas inteligentes andando rapidamente e conversando mais rapidamente ainda. E, claro, trabalhando de modo eficaz no meio dessa correria. O que dizem os críticos lá fora? Essa virada de chave no gosto do público movimenta análises na imprensa internacional. O jornal britânico “The Guardian” questionou se existe algum escapismo maior hoje em dia do que assistir a uma pessoa “capaz” na TV. O fetiche da competência seria o antídoto para a era de ansiedade e dos serviços falhos. Já a revista americana The New Republic destacou como "The Pitt" recusou as tramas leves em favor da adrenalina burocrática e médica. O site Vox analisou como nossa obsessão cultural mudou de "querer ser rico" para "querer ser útil", transformando o trabalho bem feito na nova estética do desejo. A revista Psychology Today explorou o viés comportamental da tendência, explicando o fascínio pelo "herói hiper competente" não apenas como entretenimento, mas como uma busca psicológica por estabilidade e controle em tempos imprevisíveis.

FONTE: https://g1.globo.com/pop-arte/tv-e-series/noticia/2026/02/11/o-fetiche-pela-competencia-como-the-pitt-e-the-bear-ganham-fas-com-estetica-do-trabalho-bem-feito.ghtml


#Compartilhe

Aplicativos


Locutor no Ar

Peça Sua Música

Top 5

top1
1. Eu Gosto Assim

Gustavo Mioto, Mari Fernandez

top2
2. Felina

WIU, Mc Ryan SP

top3
3. Haja Colírio

Guilherme & Benuto, Hugo & Guilherme

top4
4. Assunto Delicado

Guilherme & Benuto, Xand Avião

top5
5. Papo de Agustinho

Oruan

Anunciantes